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quinta-feira, junho 08, 2006

O PERÍODO PATRÍSTICO - PARTE II

Progressos Cruciais da Teologia

O período patrístico, como já observado anteriormente, foi de enorme importância na elaboração dos contornos da teologia cristã. Ao longo do período patrístico, as áreas da teologia apresentadas foram exploradas com especial vigor.


A Ampliação do Cânon do Novo Testamento

Desde seu início, a teologia cristã reconhecia-se como algo que se fundamentava nas Escrituras. Contudo, havia alguma incerteza em relação àquilo que o termo “Escritura”, de fato, designava. O período patrístico assistiu ao processo de decisão no qual se fixaram os limites do Novo Testamento – processo normalmente conhecido como “fixação do cânon”. A palavra “cânon” necessita explicação. Ela deriva da palavra grega Kanon e significa “uma regra” ou “um ponto fixo de referência”. O “cânon das Escrituras” refere-se a um conjunto restrito e definido de determinados livros, os quais foram considerados de inspiração divina pela igreja cristã. O termo “canônico” é usado em relação aos livros aceitos como parte do cânon. Assim faz-se referência ao evangelho de Lucas como “canônico”, ao passo que se diz que o evangelho de Tomás é “apócrifo” (isto é, não faz parte do cânon).

Para os autores do Novo Testamento, o termo “Escrituras” significava fundamentalmente o registro escrito do Antigo Testamento. Contudo, após um curto período de tempo, os primeiros autores cristãos (como Justino Mártir) faziam referência ao “Novo Testamento” (em oposição ao “Antigo Testamento”) e insistiam no fato de que ambos deveriam ser tratados com a mesma autoridade. Até a época de Irineu, aceitava-se, de modo geral, a existência de quatro evangelhos; perto do final do século II, havia um consenso em torno da idéia de que os evangelhos, o livro de Atos e as epístolas possuíam o status de Escrituras inspiradas. Logo, Clemente de Alexandria reconheceu como canônico os quatro evangelhos, o livro dos Atos dos Apóstolos, as quatorze cartas de Paulo (sendo a carta aos Hebreus considerada como paulina) e o Apocalipse. Tertuliano declarou que ao lado da “lei e dos profetas” estavam os “escritos evangélicos e apostólicos” (evangelicae et apostolicae literae), aos quais a igreja deveria atribuir autoridade canônica. Pouco a pouco se chegou a um consenso acerca da lista de livros que eram reconhecidos como parte integrante das sagradas Escrituras, bem como de ordem em que eles deveriam ser inseridos. Em 367, Atanásio pôs em circulação sua trigésima nona Carta Festiva, que identifica como canônicos os vinte e sete livros do Novo Testamento, da forma como hoje é conhecido.

O debate concentrou-se especificamente em torno de uma série de livros. A igreja ocidental tinha dúvidas a respeito da inclusão de Hebreus, pelo fato dessa epístola não ser atribuída de forma específica a um determinado apóstolo; a igreja oriental tinha reservas em relação ao Apocalipse. Quatro dos livros menores (2 Pedro, 2 e 3 João e Judas) eram frequentemente omitidos das primeiras listas dos escritos do Novo Testamento. Alguns escritos, hoje considerados como parte não integrante do cânon, gozavam de condição especial em determinadas facões da igreja, embora não tenham, ao final, alcançado aceitação universal como canônicos. Por exemplo, as primeiras cartas de Clemente (um dos primeiros bispos de Roma, que escreveu por volta do ano 96) e o Didaquê, antigo, e bastante reduzido manual cristão, sobre condutas e práticas da igreja, que data, provavelmente, do primeiro quarto do século II.

A organização do material também foi alvo de considerável alteração. Bem no princípio, chegou-se a um consenso em torno da idéia de que os evangelhos deveriam ter lugar de honra no cânon, seguidos pelo livro dos Atos dos Apóstolos. A igreja oriental tinha a tendência de inserir as sete “cartas católicas” (isto é, Tiago, 1 e 2 Pedro e 1, 2 e 3 João e Judas) antes das quatorze cartas paulinas (Hebreus era aceita como uma delas), ao passo que a igreja ocidental punha as cartas de Paulo imediatamente após Atos e, na seqüência, as cartas católicas. Apocalipse encerrava o cânon, tanto na igreja oriental, quanto ocidental, embora sua posição tenha sido alvo de debate por algum tempo na igreja oriental.

Quais critérios foram utilizados na formação do cânon? O princípio básico parece ter sido o do reconhecimento da autoridade, em vez de imposição da autoridade. Em outras palavras, os documentos em questão eram reconhecidos como algo que já possuía autoridade, em vez de esta lhes haver sido imposta de forma arbitrária. Para Irineu, a igreja não cria o cânon; ela, fundamentada na autoridade que já lhes é inerente, reconhece, conserva e recebe os escritos canônicos. Alguns dos cristãos primitivos consideraram a autoria apostólica como um aspecto de importância decisiva; outros estavam dispostos a aceitar livros que pareciam não ter credenciais apostólicas. Contudo, embora os detalhes precisos sobre a forma como foi feita essa seleção ainda permaneçam incertos, é certo que o cânon estava fechado, na igreja ocidental, até o início do século V. Essa questão não seria mais levantada até a época da Reforma.


O Papel da Tradição

A igreja primitiva foi confrontada com um grande desafio apresentado pelo movimento conhecido como gnosticismo. Esse movimento, diverso e complexo, que em nada se difere do fenômeno atual da Nova Era, alcançou uma influência considerável no final do Império Romano. Nesse momento, as idéias básicas do gnosticismo não nos interessam; aqui é relevante o fato de esse movimento parecer, em muitos aspectos, bastante semelhante ao cristianismo. Por essa razão, muitos dos primeiros autores cristãos, especialmente Irineu, viam esse movimento como um grande desafio. Além do mais, os autores gnósticos apresentavam uma tendência de interpretar passagens do Novo Testamento, de uma forma que consternava os líderes cristãos e provocava questionamentos sobre a maneira correta de se interpretar as Escrituras.

Nesse contexto, um apelo à tradição se tornou algo de importância crucial. A palavra “tradição” significa literalmente “aquilo que tem sido transmitido”, embora também possa se referir ao “ato de transmissão” em si. Irineu insistia em que a “regra de fé” (regula fidei) fora fielmente preservada pela igreja apostólica e que encontrava expressão nos livros canônicos que formavam as Escrituras. A igreja, desde a época dos apostos te os dias atuais, havia proclamado com fidelidade o mesmo evangelho. Os gnósticos não podiam alegar tal continuidade em relação à igreja primitiva. Eles haviam simplesmente inventado novas idéias e sugeriam, de maneira inadequada, que eram idéias “cristãs”. Logo, Irineu enfatizou a continuidade do papel da igreja e de seus representantes (especialmente de seus bispos) em relação aos ensinamentos e à pregação. A tradição veio a significar “uma interpretação tradicional das Escrituras” ou “uma apresentação tradicional da fé cristã” que se reflete nos credos da igreja e em seus pronunciamentos doutrinários. Como ficará claro na próxima seção, essa fixação dos credos como uma forma de expressar publicamente os ensinamentos da igreja é de importância fundamental.

Tertuliano adotou uma abordagem semelhante. Conforme ele argumentava, é possível uma compreensão clara das Escrituras desde que seja lida como um todo. Contudo, ele reconhecia que na interpretação de certas passagens a controvérsia seria inevitável. Hereges, conforme ele observava com pesar, podem fazer com que as Escrituras digam, mais ou menos, qualquer coisa que queiram. Por esse motivo, a tradição da igreja tinha importância considerável, o que era demonstrado pela forma com que as Escrituras haviam sido recebidas e interpretada no seio da igreja. Assim, a interpretação correta das Escrituras era encontrada onde tinham sido mantidas a fé e a disciplina cristãs verdadeiras. Atanásio possuía uma visão semelhante e alegava que os equívocos cristológicos de Ário jamais teriam surgido, caso este se tivesse mantido fiel à interpretação dada às Escrituras pela Igreja.

Portanto, a tradição era vista como um legado dos apóstolos, por meio da qual a igreja era guiada em direção a uma correta interpretação das Escrituras. Ela não era encarada como uma “fonte secreta de revelação”, em acréscimo às Escrituras, uma idéia que Irineu rejeitava e considerava “gnóstica”. Antes, a tradição era vista como um meio de assegurar que a igreja permanecia fiel aos ensinamentos apostólicos, em vez de adotar interpretações bíblicas que fossem idiossincráticas.

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