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segunda-feira, junho 26, 2006

O PERÍODO PATRÍSTOCO - PARTE III

St Agostinho e São Gregório - 1483 - Alte Pinakothek, Munich
A Relação da teologia Cristã com a Cultura Secular

Um dos debates mais importantes no seio da igreja primitiva dizia respeito à extensão com que os cristãos poderiam se apropriar do imenso legado cultural do mundo clássico – a poesia, a filosofia e a literatura. De que forma a ars poetica (a arte poética) poderia ser adotada e adaptada pelos autores cristãos, que ansiavam por utilizar esses padrões clássicos de escrita, para expor e comunicar sua fé? Ou o próprio uso desse meio literário significava comprometer os fundamentos da fé cristã? Esse foi um debate de imensa relevância à medida que levantou a questão sobre a possibilidade do cristianismo voltar as costas a sua herança clássica ou apropriar-se dela, mesmo que de uma forma modificada. À vista de sua importância e interesse, citaremos extensivamente alguns dos documentos mais importantes que contribuíram para esse debate.

Uma primeira resposta a essa importante questão foi dada por Justino Mártir, autor do Século II, que apresentava uma preocupação particular em explorar os paralelos entre o cristianismo e o platonismo como forma de comunicação do evangelho. Para Justino, as sementes da sabedoria divina haviam sido semeadas por todo o mundo, o que significava que os cristãos poderiam e deveriam estar prontos para encontrar aspectos do evangelho refletidos no contexto externo à igreja.

"Fomos ensinados que Cristo é o unigênito de Deus e temos proclamado que ele é o Logos, a quem todas as raças têm acesso. E aqueles que vivem segundo o Logos sãos cristãos mesmo que possam haver sido classificados como ateus – como Sócrates e Heráclito e outros como eles, dentre os gregos. O que quer que tenham dito, com acerto, tanto os filósofos, quanto os advogados, foi articulado por meio da descoberta e da reflexão sobre algum aspecto do Logos. Entretanto, uma vez que eles não conhecem plenamente o Logos – que é Cristo – eles normalmente contradizem a si mesmos. O que quer que tenha sido dito com precisão, por qualquer pessoa, pertence a nós, os cristãos. Pois adoramos e amamos, ao lado de Deus, o Logos que é oriundo do Deus eterno e inefável, uma vez que foi por nossa causa que ele se tornou humano, para que pudesse compartilhar de nossos sofrimentos e nos trazer cura. Contudo, todos os autores foram capazes de ver a verdade de forma nebulosa, em razão da semente do Logos que foi inserida neles".


Para Justino, os cristãos eram, portanto, livres para se utilizar da cultura clássica, com a consciência de que o que quer que “tenha sido dito com precisão” se baseia, afinal, na sabedoria e no discernimento divinos.

Ainda que o argumento de Justino possa ter sido importante, ele foi recebido com certa frieza por muitos setores da igreja cristã. A maior dificuldade estava no fato de que era encarado como algo que praticamente equiparava o cristianismo à cultura clássica, por haver falhado na elaboração de fundamentos adequados para se distinguir entre um e outro, aparentemente sugerindo que a teologia cristã e o platonismo eram simplesmente maneiras distintas de ver as mesmas realidades divinas. Taciano, discípulo de Justino (nascido em c. 120), era cético em relação aos méritos da retórica e da poesia clássicas, considerando ambas como algo que promovia o engano e negligenciava as questões da verdade.

A crítica mais severa a esse tipo de enfoque foi encontrada nos escritos de Tertuliano, advogado romano do século III que se converteu ao cristianismo. Ele questionava: “Que relação há entre Atenas e Jerusalém? Que importância a Academia de Platão tem para a igreja?”. A forma como a pergunta é feita deixa clara a resposta de Tertuliano: o cristianismo deve manter sua identidade característica, evitando influências seculares desse tipo.

"A filosofia fornece o conteúdo da sabedoria secular ao reivindicar para si, de maneira audaciosa, o papel de intérprete da natureza e da revelação divinas. As próprias heresias recebem da filosofia suas armas. Foi dessa fonte que Valentino, um discípulo de Platão, tirou suas idéias dobre os “éons” e a “trindade da humanidade”. E foi de lá que surgiu o deus de Marcião (preferível por causa de sua placidez); Marcião inspirou-se nos estóicos. Dizer que a alma está sujeita à morte é tomar o caminho de Epicuro. E a negação da ressurreição do corpo está nos escritos de todos os filósofos. Afirmar que a matéria é equivalente a Deus é seguir a doutrina de Zenão; falar de um deus de fogo é aproximar-se de Heráclito. Os temas que preocupam tanto hereges quanto filósofos são os mesmos. Qual é a origem do mal e por que existe? Qual é a origem da natureza humana e como apareceu? Que relação há entre Atenas e Jerusalém? Que importância a Academia tem para a igreja? Nosso sistema de crenças vem do Pórtico de Salomão, o qual ensinou, por meio de seu exemplo, que era necessário que se buscasse a Deus com simplicidade de coração. Tanto pior para aqueles que falam de um cristianismo “estóico”, “platônico” ou “dialético”! "

Essa rejeição irrestrita de todo aspecto da cultura pagã apresentava a vantagem de ser facilmente compreensível. O cristianismo, de acordo com Tertuliano, era basicamente um movimento contracultural, que recusava deixar-se contaminar, de qualquer forma, pelo contexto mental e moral no qual se encontrava arraigado. Contudo, havia obstáculos nesse tipo de abordagem consistentemente negativa. Ela parecia negar aos cristãos o acesso ou o uso de qualquer herança intelectual e cultural para um propósito plenamente louvável – isto é, a proclamação do evangelho. Muitos dos primeiros autores cristãos estudaram a retórica clássica como um meio para aperfeiçoar sua pregação e escrita e assim facilitar a comunicação da fé para aqueles que não pertenciam à igreja. Tertuliano estava eliminando isso?

Ao lado dessa abordagem pragmática encontrava-se uma questão mais teológica. Toda sabedoria verdadeira não tem sua origem em Deus? Assim, os cristãos não deveriam honrar essa verdade, sempre que fosse encontrada? Tertuliano, de acordo com seus críticos, tinha pouco a oferecer em termos de resposta para essas questões.

A questão tornou-se de grande importância com a conversão do imperador romano Constantino, a qual abriu caminho para uma avaliação muito mais positiva do relacionamento de cada aspecto da vida e do pensamento cristãos com a cultura clássica. Em vista da importância desse avanço, precisamos explorar mais detalhadamente o panorama em que isso se deu. O cristianismo, havendo estabelecido, a princípio, uma presença significativa em Roma, por volta dos anos 40, gozada de um status bom, mas decididamente ambíguo. Por um lado, não era um movimento legalmente reconhecido e, portanto, não gozava de quaisquer direitos especiais; por outro lado, também não era proibido. Entretanto, sua crescente força numérica levou a tentativas periódicas de suprimi-lo pela força. Por vezes, essas perseguições eram locais, restritas a regiões como o norte da áfrica; em outras, elas eram adotadas por todo o Império Romano.

Nessas condições, dificilmente surpreende o fato de muitos cristãos sentir certa rejeição em relação à cultura clássico-romana. Essa cultura pertencia ao opressor, que estava determinado a exterminar o cristianismo. É fácil perceber a força dos argumentos de Tertuliano sob essa circunstância. Adotar os padrões culturais romanos era o mesmo que trair a fé cristã. Contudo, era possível que a força dos argumentos de Tertuliano fosse significativamente abalada uma vez que a relação entre a cultura clássica e o cristianismo seria alterada.

Com a conversão de Constantino, a controvérsia sobre a interação entre o cristianismo e a cultura clássica assumiu um novo sentido. Roma era agora serva do evangelho; o mesmo não poderia ser válido em relação a sua cultura? Se o Estado romano poderia ser encarado de uma forma positiva pelos cristãos, por que o mesmo não se dava com relação a seu legado cultural? Parecia que uma porta havia sido aberta na direção de algumas possibilidades bastante interessantes. Antes de 313, essa situação era cogitada somente em sonhos. Após 313, sua exploração tornou-se motivo de urgência para os principais intelectuais cristãos dentre os quais o maior foi Agostinho de Hipona.

Não é de surpreender o fato de que Agostinho elaborasse a resposta que afinal seria aceita que talvez possa ser mais bem descrita como a “apropriação crítica da cultura clássica”. Para Agostinho, a situação era comparável à fuga de Israel do cativeiro no Egito, à época do Êxodo. Embora tenham deixado para trás os ídolos do Egito, levaram consigo o ouro e a prata do Egito para que pudessem fazer um uso melhor e mais apropriado dessas riquezas, que assim estavam disponíveis para servir a um propósito mais nobre que o anterior. De forma bastante semelhante, a filosofia e a cultura do mundo antigo poderiam ser apropriadas pelos cristãos, naquilo em que fossem corretas e, assim, poderiam servir à causa da fé cristã. Agostinho arrematou seu argumento com a observação de que vários cristãos, que recentemente tinham se tornado famosos, haviam lançado mão da sabedoria clássica para o avanço do evangelho.

"Se aqueles que são chamados de filósofos, em especial os platônicos, disserem qualquer coisa que seja verdadeira e consistente com nossa fé, não devemos rejeitá-la, mas antes reivindicá-la para nosso uso, conscientes de que eles a possuem injustamente. Os egípcios possuíam ídolos e fardos pesados que os filhos de Israel odiavam e dos quais eles fugiram; entretanto, eles também possuíam vasos de ouro e de prata e roupas que os nossos antepassados, ao deixar o Egito, levaram consigo, em segredo, com a intenção de fazer melhor proveito deles (Êxodo 3.21-22; 12.35-36)... Da mesma forma, o conhecimento pagão não é inteiramente feito de falsos ensinamentos e superstições.... Ele também possui alguns ensinamentos excelentes e adequados ao uso da verdade, assim como excelentes valores morais. De fato, entre eles encontram-se algumas verdades relativas à adoração do Deus único. Eles são, por assim dizer, o ouro e a prata que possuem, os quais eles mesmos não produziram, mas retiraram das minas da providência divina que se encontram espalhadas por todo o mundo, mas que são, contudo, corrompidas de forma imprópria e ilícita, para a adoração de demônios. Portanto, o cristão é capaz de separar essas verdades de suas infelizes associações, separando-as e utilizando essas verdades de maneira adequada à proclamação do evangelho....

O que mais têm feito dentre nós muitos servos bons e fiéis? Vejam a riqueza do ouro, da prata e das vestes que Cipriano – aquele mestre eloqüente e mártir abençoado – trouxe consigo quando deixou o Egito! E pense a respeito de tudo o que Lactantius trouxe consigo, para não mencionar Marius Vctorinus, Optatus e Hilário de Poitiers e outros, que ainda vivem! E vejam o quanto os gregos tomaram emprestado! E, antes de tudo, descobrimos que Moisés, um dos mais fiéis servos de Deus, fez o mesmo: afinal, está escrito a seu respeito que: “Moisés foi educado em toda a sabedoria dos egípcios (Atos 7.22)”. "

O tema fundamental está em apropriar-se de um modo de pensar – ou de escrever, ou de falar – que havia anteriormente sido disponibilizado ao uso pagão e redimi-lo de forma que possa ser posto a serviço do evangelho. Agostinho argumenta que aquelas formas de pensamento e de expressão que são essenciais, neutras, porém, valiosas, foram extraídas “das minas da providência divina”; a dificuldade está no uso que foi feito delas pela cultura pagã, por meio da qual foram “corrompidas, de forma imprópria e ilícita, para a adoração de demônios”.

Logo, a abordagem de Agostinho lançou a base para afirmação de que o que quer que fosse bom, verdadeiro ou belo poderia ser utilizado a serviço do evangelho. Essa era a abordagem que seria predominante na igreja ocidental, desde que fornecida uma base teológica para a apropriação crítica, por parte de autores cristãos, de gêneros literários provenientes de fontes não pertencentes à igreja. Adicionalmente às formas literárias já conhecidas no seio da igreja e amplamente consideradas como algo inteiramente adequado ao uso cristão – como o sermão e o comentário bíblico – podem-se acrescentar outras, cuja linhagem cultual era totalmente secular. Entre os exemplos inclui-se o drama e – em antecipação a um avanço posterior – o romance.

Assim, estava armado o cenário para a interação criativa da teologia, liturgia e espiritualidade cristãs com a tradição cultural do mundo antigo – sem dúvida alguma, um dos exemplos mais interessantes e férteis de hibridismo cultural da história intelectual da humanidade.


A Definição dos Credos Ecumênicos

A expressão “credo” vem da palavra latina, que apresenta a mesma grafia e cujo significado é “eu creio”, expressão inicial do credo apostólico -, provavelmente, o mais conhecido de todos os credos: “Creio em Deus Pai todo-poderoso...”. Esta expressão veio a significar uma referência à declaração de fé, que sintetiza os principais pontos da fé cristã, os quais são compartilhados por todos os cristãos. Por esse motivo, o termo “credo” jamais é empregado em relação a declarações de fé que sejam associadas a denominações específicas. Estas são geralmente chamadas de “confissões” (como a Confissão Luterana de Augsburg ou a Confissão da Fé Reformada de Westminster). A “confissão” pertence a uma denominação e inclui dogmas e ênfases especificamente relacionados a ela; o “credo” pertence a toda a igreja cristã e inclui nada mais, nada menos do que uma declaração de crenças, as quais todo cristão deveria ser capaz de aceitar e observar. O “credo” veio a ser considerado como uma declaração concisa, formal, universalmente aceita e autorizada dos principais pontos da fé cristã.

O período patrístico presenciou o surgimento de dois credos, que alcançaram paulatinamente autoridade e respeito por toda a igreja. O estímulo para seu desenvolvimento parece ter sido a necessidade de proporcionar uma síntese adequada da fé cristã, apropriada para ser utilizada em ocasiões públicas, dentre as quais, talvez, a mais importante fosse o batismo. A igreja primitiva costumava batizar seus convertidos no dia de Páscoa, usando o período de quaresma como um tempo de preparação e instrução voltado para esse momento de profissão pública de fé e de compromisso. Um requisito essencial era que cada convertido, que desejasse se batizar, deveria declarar publicamente sua fé. Parece que os credos começaram a se sobressair como uma declaração de fé homogênea, que os convertidos podiam utilizar nessas ocasiões.

O Credo Apostólico é provavelmente a forma de credo mais conhecida pelos cristãos ocidentais. Ele se divide em três partes principais, que tratam, respectivamente, de Deus, de Jesus Cristo e do Espírito Santo. Há também conteúdos relacionados à igreja, ao juízo e à ressurreição. A evolução histórica desse credo é complexa e baseou-se, em sua origem, em declarações de fé que eram exigidas daqueles que desejavam ser batizados. As doze declarações individuais desse credo, que parecem haver assumido seu formato final no século VIII, são tradicionalmente atribuídas a determinados apóstolos, embora não haja qualquer justificativa histórica para essa crença. Existem pequenas diferenças entre as versões oriental e ocidental desse credo; as declarações relacionadas à "descida à mansão dos mortos” e à “comunhão dos santos” (inserida abaixo entre colchetes) não são encontradas em versões orientais desse documento.

O Credo Apostólico

1. Creio em Deus Pai, todo-poderoso, criador dos céus e da terra;
2. e em Jesus Cristo seu único (unicus) Filho, nosso Senhor;
3. que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria;
4. sofreu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado;
[desceu à mansão dos mortos];
5. ressuscitou ao terceiro dia;
6. subiu aos céus e está assentado à direita de Deus Pai todo-poderoso;
7. de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
8. Creio no Espírito Santo;
9. na santa igreja católica; [na comunhão dos santos];
10. na remissão dos pecados;
11. na ressurreição da carne (ressurrectio carnis);
12. e na vida eterna.



O Credo Niceno é a versão mais longa do credo (mais especificamente conhecido como “Credo Niceno Constantinopolitano”), que inclui um conteúdo adicional relacionado à pessoa de Cristo e à obra do Espírito Santo. Em resposta às controvérsias concernentes à divindade de Cristo, esse credo introduz fortes declarações acerca de sua unidade com Deus, incluindo as expressões “Deus de Deus” e “consubstancial ao Pai”. Como parte integrante de sua polêmica contra os arianos, o Concílio de Nicéia (junho de 325) formulou uma breve declaração de fé, fundamentada em um credo batismal, adotado em Jerusalém.

Esse credo pretendia afirmar a plena divindade de Cristo, em oposição ao entendimento dos arianos, que defendiam sua condição de criatura, e inclua quatro condenações explícitas às perspectivas arianas, bem como três artigos de fé. Como os detalhes completos sobre os procedimentos de Nicéia foram perdidos, somos forçados a contar com o auxílio de fontes secundárias (como historiadores eclesiásticos e autores como Atanásio e Basílio de Cesaréia) para obter o texto desse credo.

O Credo Niceno

Cremos em um só Deus, Pai onipotente (pantocrator), criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.

Cremos em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, gerado do Pai desde toda a eternidade, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai (homoousion to patri); por Ele todas as coisas foram feitas. Por nós e para nossa salvação, desceu dos céus; encarnou por obra do Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e fez-se verdadeiro homem. Por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; sofreu a morte e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras; subiu aos céus, e está sentado à direita do Pai. De novo há de vir em glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim. Cremos no Espírito Santo.

Com referência àqueles que dizem que “o mundo já existia antes dEle” e que “antes de haver nascido Ele não existia” e que “Ele veio a existir a partir do nada”, ou, ainda, que afirmam que o Filho de Deus não possui a mesma substância ou natureza de Deus, ou que Ele está sujeito à alteração ou mudança – a igreja católica e apostólica os condena.


A evolução dos credos representou um importante elemento no processo para se chegar a um consenso doutrinário no seio da igreja primitiva. Uma das áreas da doutrina que sofreu consideráveis avanços e controvérsias é aquela relacionada à pessoa de Cristo, à qual podemos agora nos dedicar.


As Duas Naturezas de Cristo

As duas doutrinas, em relação às quais pode-se afirmar que o período patrístico deu uma contribuição decisiva, referem-se à pessoa de Cristo (uma área da teologia a qual, conforme observamos, geralmente é denominada “Cristologia”) e à natureza de Deus. Essas duas doutrinas estão organicamente ligadas uma à outra. Até o ano 325, a igreja primitiva havia chegado à conclusão de que Jesus era “um em substância” (homoousios) com Deus. (O termo homoousios também pode ser traduzido como “um em existência” ou “consubstancial”). As implicações dessa afirmação cristológica eram duas: em primeiro lugar, consolidava, sob o ponto de vista intelectual, a importância espiritual de Jesus para os cristãos; porém, em segundo lugar, representava um poderoso desafio às concepções simplistas de Deus. Pois se Jesus é considerado como aquele que “é um em substância” com Deus, então toda a doutrina sobre Deus deve ser revista à luz dessa crença. Por esse motivo, o desenvolvimento histórico da doutrina da Trindade é considerado posterior ao surgimento de um consenso cristológico no seio da igreja. Somente quando a divindade de Cristo pôde ser encarada como um ponto de partida, comum e indubitável, foi possível dar início à especulação teológica sobre a natureza de Deus.

Deve-se observar que a maior parte dos debates cristológicos da igreja primitiva aconteceram no mundo mediterrâneo oriental e em grego, bem como, freqüentemente, à luz dos pressupostos das grandes escolas gregas de filosofia. Em termos práticos, isso significa que muitos dos termos centrais dos debates cristológicos da igreja primitiva são gregos possuindo normalmente um histórico de uso em meio à tradição filosófica grega.

As principais características da cristologia patrística serão vistas em maior detalhe mais adiante. Porém, nesse estágio inicial, podemos sintetizar os principais pontos de debate cristológico patrístico, em termos de duas escolas, dois debates e dois concílios, conforme se segue:

1. Escolas – A Escola de Alexandria tinha a tendência de enfatizar a divindade de Cristo e de interpretá-la em termos do “verbo que se fez carne”. João 1.14 é dos textos das Escrituras que foi de importância fundamental para essa escola: “Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós”. Essa ênfase a respeito da idéia de encarnação levou ao fato de o Natal ser encarado como algo de especial importância. Contudo, a Escola de Antioquia enfatizou, de maneira equivalente, a humanidade de Cristo e atribuiu importância especial a seu exemplo moral.

2. Debates – A controvérsia ariana do século IV é tida, geralmente, como uma das mais significativas da história da igreja. Ário (c. 250 – c. 336) alegava que os títulos conferidos a Cristo nas Escrituras, que indicavam ter ele uma posição equivalente a de Deus, eram dados meramente por cortesia. Cristo deveria ser considerado como uma criatura, embora, não obstante, superior às demais. Atanásio respondeu contrariamente a isso, ele alegava ser a divindade de Cristo de importância central para o entendimento cristão a respeito de salvação (uma área da teologia conhecida como “soteriologia”). Atanásio declarou que a cristologia de Ário era imprópria em termos soteriológicos. O Cristo de Ário não poderia redimir a humanidade caída. Após algum tempo, o arianismo (movimento ligado a Ário) foi declarado herege. A seguir, veio o debate apolinarista que se concentrava em torno de Apolinário de Laudicéia (c.310 – c.390). Apolinário, forte opositor de Ário, alegava que Cristo não poderia ser considerado totalmente humano. No caso de Cristo, o espírito humano fora substituído pelo Logos divino. Em conseqüência, Cristo não era plenamente humano. Autores como Gregório de Nazianzo, consideram essa posição profundamente falha, pois implicava no fato de que Cristo não poderia redimir de forma plena a natureza humana.

3. Concílios – O Concílio de Nicéia (325) foi convocado por Constantino, o primeiro imperador cristão, a fim de solucionar os desentendimentos cristológicos que desestabilizavam seu império. Esse foi o primeiro “concílio ecumênico” (isto é, uma assembléia de bispos vindos de todo o mundo cristão, cujas decisões eram tidas pelas igrejas como normativas). O Concílio de Nicéia (hoje a cidade de Iznik, na atual Turquia) pôs fim à controvérsia ariana, declarando que Jesus era homoousios (“um em existência” ou “um em substância”) com o Pai, rejeitando, portanto, a posição ariana, em favor de uma veemente afirmação da divindade de Cristo. O Concílio de Calcedônia (451), foi o quarto concílio ecumênico, confirmou as decisões tomadas no Concílio de Nicéia e respondeu a novas polêmicas a respeito da humanidade de Cristo, que haviam surgido posteriormente.

A Doutrina da Trindade

Uma vez que as polêmicas cristológicas da igreja primitiva haviam sido resolvidas, as conseqüências dessas decisões foram exploradas. Nesse período intensamente criativo e fascinante da teologia cristã, a doutrina da trindade começou a tomar corpo. A característica básica dessa doutrina concentra-se na existência do Deus trino – Pai, Filho e Espírito Santo – e que cada um deles deve ser considerado igualmente divino e de importância equivalente. A co-igualdade entre Pai e Filho foi estabelecida por meio de debates cristológicos que culminaram com o Concílio de Nicéia; a divindade do Espírito foi estabelecida como conseqüência disso, especialmente por meio de escritos como Atanásio e Basílio de Cesaréia.

O principal impulso dos debates a respeito da Trindade concentrou-se, pouco a pouco na maneira pela qual a mesma deveria ser entendida, em vez de discutir seu valor fundamental. Duas abordagens bastante distintas surgiram gradualmente, uma delas ligada à igreja oriental e a outra, à igreja ocidental.

A posição da igreja oriental, que ainda goza atualmente de grande prestígio em meio às igrejas ortodoxas gregas e russas, foi desenvolvida particularmente por um grupo de três autores, radicados onde hoje é a Turquia. Basílio de Cesaréia (c. 330-379), Gregório de Nazianzo (329-389) e Gregório de Nissa (c. 330 – c.395), conhecidos como os pais capadócios, iniciaram suas reflexões sobre a Trindade por meio da consideração das distintas formas pelas quais se experimenta a presença do Pai, do Filho e do Espírito. A posição da Igreja ocidental, associada de uma forma especial a Agostinho de Hipona, teve como ponto de partida a unidade de Deus e explorou, a seguir, as implicações do amor de Deus, para que compreendêssemos sua natureza. Essas posições serão vistas com maior detalhe em artigos mais adiante.

A doutrina da Trindade representa um raro exemplo de questão teológica de interesse comum para ambas as igrejas, oriental e ocidental. Nossa atenção agora se volta para duas controvérsias teológicas especificamente ligadas à igreja ocidental e que vieram a ser particularmente associadas a Agostinho de Hipona.


A Doutrina da Igreja

Uma controvérsia fundamental no seio da igreja ocidental se concentrava na questão da santidade da igreja. Os donatistas eram um grupo de cristãos africanos, radicados onde hoje fica a Argélia, que se ressentiam pela crescente influência da igreja de Roma no norte da África. Os donatistas alegavam que a igreja era um corpo formado por santos, no seio do qual não havia lugar para pecadores. Essa questão adquiriu importância especial em razão da perseguição empreendida pelo imperador Diocleciano, em 303, que persistiu até a conversão de Constantino, em 313. Ao longo desse período, no qual a posse das Escrituras era algo considerado ilegal, diversos cristãos entregaram para as autoridades as cópias das Escrituras que possuíam. Imediatamente, eles foram censurados pelos outros que haviam se recusado a ceder à pressão. Depois que a perseguição se abrandou, muitos desses traditores – uma palavra latina que significa literalmente “aqueles que entregaram [suas Escrituras]” – voltaram a se juntar à igreja. Os donatistas exigiram sua expulsão; pois eles haviam feito concessões indevidas. Agostinho argumentava em sentido contrário, pois afirmava que a igreja deve permanecer com um “corpo misto”, composto por santos e pecadores, recusando-se a eliminar aqueles que haviam caído sob perseguição ou por outras razões. A eficácia do ministério e da proclamação da igreja não dependia da santidade de seus ministros, mas sim da pessoa de Cristo. A falta de mérito pessoal de um ministro não comprometia a eficácia dos sacramentos. Essa perspectiva, que rapidamente tornou-se regra no seio da igreja, teve um impacto profundo sobre o pensamento cristão a respeito da natureza da igreja e de seus ministros.

A controvérsia donatista, que será vista com maiores detalhes mais adiante, foi a primeira a concentrar-se na questão da doutrina da igreja (conhecida como “eclesiologia”) e nas questões a ela relacionadas, como a forma de atuação dos sacramentos. Muitos dos temas levantados pela controvérsia seriam retomados novamente na época da Reforma, quando questões relacionadas à igreja voltariam, uma vez mais, à baila. O mesmo pode-se dizer da doutrina da graça, à qual nos dedicaremos nesse instante.



A Doutrina da Graça

A doutrina da graça não havia sido um tema relevante no desenvolvimento teológico da igreja oriental, de língua grega. Entretanto, uma intensa controvérsia se desencadeou em torno dessa questão, na segunda década do século V. Pelágio, monge ascético britânico, radicado em Roma, defendia vigorosamente a necessidade da responsabilidade moral do ser humano. Ele, alarmado com a lassidão moral da igreja romana, insistia na necessidade de um constante aperfeiçoamento pessoal à luz da lei do Antigo Testamento e do exemplo de Cristo. Os opositores de Pelágio – entre os quais o principal era Agostinho – achavam que ele negava o real papel da graça divina no início e no prosseguimento da vida cristã. O pelagianismo veio a ser encarado como uma forma de religião que pregava a autonomia humana e que sustentava ser o ser humano capaz de tomar a iniciativa de sua salvação.

Agostinho reagiu violentamente contra o pelagianismo, insistindo na prioridade da graça divina em cada estágio da vida cristã, desde o início até o fim. Segundo Agostinho, os seres humanos não possuíam a liberdade necessária para dar os primeiros passos em direção à salvação. Longe de possuir “liberdade de escolha”, os seres humanos possuíam um desejo, que fora corrompido e maculado pelo pecado e que os inclinava na direção do mal e para longe de Deus. Somente a graça de Deus poderia neutralizar essa propensão para o pecado. A defesa da graça feita por Agostinho foi tão ardente que, posteriormente, veio a ser conhecido como “doutor da graça” (doctor gratiae).

Um tema central do pensamento de Agostinho é a corrupção da natureza humana. A imagem da “Queda” deriva-se de Gênesis 3 e exprime a idéia de que a natureza humana “decaiu” de sua condição original de pureza. Assim, a condição atual da natureza humana não é aquela intencionada por Deus. A criação não mais corresponde diretamente à “excelência” de sua integridade original. Ela deteriorou-se. Foi corrompida ou arruinada – mas não de forma irremediável, como afirma as doutrinas da salvação e da justificação. A imagem da “Queda” transmite a idéia de que a criação existe agora em uma condição inferior àquela pretendida por Deus.

Agostinho achava que disso decorria o fato de todos os seres humanos estarem agora contaminados pelo pecado, desde o nascimento. Agostinho, em oposição àquelas filosofias existencialistas do século XX que atestam que a “corrupção” é uma escolha que fazemos (em vez de algo que nos é imposto), retrata o pecado como algo inerente à natureza humana. É um aspecto que integra nosso ser, não algo opcional. Esta percepção, a qual é expressa com maior rigor na doutrina de Agostinho sobre o pecado original, é de importância cardeal para suas doutrinas do pecado e da salvação. Como todos somos pecadores, todos necessitamos ser salvos. Como todos necessitamos da glória de Deus, todos precisamos ser redimidos.

Para Agostinho de Hipona, a humanidade, se deixada por conta própria e apenas com seus recursos, jamais poderia se relacionar com Deus. Nada do que um homem ou uma mulher fosse capaz de fazer poderia quebrar a opressão do pecado. Usando uma imagem, que Agostinho foi feliz o suficiente para nunca haver testemunhado, seria como um viciado em drogas tentando se livrar das garras da heroína ou da cocaína. A situação não pode ser transformada por si mesma, portanto, a transformação deve ocorrer por meio de algo extrínseco à condição humana. De acordo com Agostinho, Deus intervém no dilema humano. Deus não precisava fazê-lo, mas por amor à humanidade caída, Deus assumiu a condição humana, na pessoa de Jesus Cristo, para nos salvar.

Agostinho de Hipona sustentava que a “graça” é um dom divino gratuito ou imerecido, pelo qual Deus, por sua vontade, rompeu a opressão do pecado sobre a humanidade. A salvação somente é possível como um dom de Deus. Não é algo que possamos atingir por nós mesmos, mas sim algo que deve ser feito por nós. Agostinho enfatiza que os meios para a salvação se encontram em Deus, fora do alcance da humanidade. É Deus quem dá início ao processo da salvação, não o homem.

Entretanto, para Pelágio a situação era bastante distinta. Ele ensinava que os meios para a salvação se encontravam na própria humanidade. Os próprios seres humanos têm a capacidade de salvar a si mesmos. Eles não estão presos ao pecado, mas antes têm a capacidade de fazer tudo que é necessário para ser salvos. A salvação é algo que se conquista por meio das boas obras, as quais sujeitam Deus à obrigação de recompensar a humanidade por suas conquistas morais. Pelágio marginaliza a idéia da graça, vendo-a em termos de exigências feitas por Deus em relação à humanidade, para que a salvação possa ser alcançada – como os Dez Mandamentos ou o exemplo moral de Cristo. A essência do pelagianismo poderia ser resumida como a “salvação pelo mérito”, ao passo que Agostinho ensinava a “salvação pela graça”.

Ficará evidente que essas duas teologias distintas envolvem entendimentos bastante divergentes sobre a natureza humana. Para Agostinho, a natureza humana é fraca, caída, impotente; para Pelágio, ela é autônoma e auto-suficiente. Para Agostinho, a humanidade deve depender de Deus para sua salvação; para Pelágio Deus simplesmente aponta o que deve ser feito para se alcançar a salvação e deixa o ser humano à própria sorte para satisfazer essas condições. Para Agostinho, a salvação é um dom imerecido; para Pelágio, ela é apenas uma recompensa ganha.

Um aspecto da perspectiva de Agostinho em relação à graça necessita maiores comentários. Como os seres humanos eram incapazes de salvar a si mesmos e como Deus concedeu seu dom da graça para alguns (mas não para todos), disso decorre que Deus selecionou por antecipação aqueles que seriam salvos. Agostinho de Hipona desenvolveu indícios dessa idéia encontrada no Novo Testamento e formulou a doutrina da predestinação. O termo “predestinação” se refere à decisão original e eterna de Deus de salvar a alguns e não a outros. Foi esse aspecto do pensamento agostiniano que muitos de seus contemporâneos, para não mencionar seus sucessores, consideraram inaceitável. É desnecessário dizer que esse aspecto não possui um equivalente no pensamento de Pelágio.

O Concílio de Cartago (418) decidiu-se pelas perspectivas de Agostinho em relação à graça e ao pecado e condenou com intransigência o pelagianismo. Entretanto, o pelagianismo, em suas mais variadas formas, continuou a ser objeto de controvérsia ainda por algum tempo. À medida que, na Europa Ocidental, o período patrístico chegava ao fim e iniciava-se a Idade das Trevas, muitas questões permaneciam pendentes. Elas seriam retomadas, mais uma vez, ao longo da Idade Média e, sobretudo na época da Reforma.


Não deixe de ler o artigo A IDADE MÉDIA E O RENASCIMENTO - c. 1050 - c. 1500 a ser postado em breve

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